O DIA DA MULHER SXSW 2019

A liderança empresarial feminina e a diversidade como força inovadora: deixemos nossas caixinhas!

 


Quando entrou na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo durante a ocupação estudantil que exigia a abertura da CPI da Merenda, em maio de 2016, a cineasta Eliza Capai queira apenas fazer uma pesquisa de personagens. Porém, a complexidade daquele movimento e sua diversidade ideológica e de gênero, mudou completamente seus planos. A necessidade de entender o que estava acontecendo mexeu com Eliza. Quando saiu da Alesp, onde passou a noite com os estudantes, ela sentiu a responsabilidade não só de compreender aquele episódio como documenta-lo. Era preciso levar aquela experiência adiante.

Enquanto a cineasta brasileira palestrava no Brazil: from resistance to na interactive film, Melina Alves, CEO da DUXcoworkers, estava nos stands do EU@SXSW, onde algumas questões feministas lhe despertaram uma reflexão. Não pela novas ideias e caminhos, mas por estarem em pauta há décadas. A falta do reconhecimento da competência das mulheres e a dificuldade de serem aceitas como lideranças empresariais são assuntos tão antigos que pareciam destoar do clima inovador do SXSW. Até quanto essas deformações sociais irão privar as mulheres, criando obstáculos ao seu desenvolvimento?

O Dia da Mulher no SXSW 2019, passou nesse compasso, com a abordagem de diversos assuntos que provocavam uma reflexão comum: a importância da mulher assumir a liderança da inovação.

 

 

Diversidade é vida.

Durante o tempo que passou junto aos estudantes na Alesp, Eliza Capai surpreendeu-se com a diversidade que encontrou. Opiniões, posturas políticas e visões de mundo das mais variadas vertentes, convergiam para a vontade comum da transformação. Ao mesmo tempo em que, como uma mulher mais experiente e ciente da realidade das coisas, temia pela segurança das garotas que enfrentavam a Guarda Civil Metropolitana de shortinhos e camisetas curtas, percebia que aquelas adolescentes se assumiam como mulheres, mandando uma clara mensagem a todos que ali estavam: “meu corpo, minhas regras”. E naquele caldeirão de emoções e descobertas, a cineasta percebeu o quanto a limitação de gênero em mulher ou homem não cabe na infinita complexidade do ser humano. Somos uma caixa sem tranca.

 

 

Essa diversidade de gêneros foi protagonista no painel Feminist Rising: Whay Brands Must Take Stand, onde Jeniffer da Silva (Presidente da Berlin Cameron), Kimberly Jenkins (Parsons School of Desing, Pratt Institute), Becca McCharen-Tran (CEO da Chromat) e  Rebecca Minkoff debatiam a necessidade das empresas reconhecerem essa diversidade no consumidor. O público não pode mais ser visto como uma massa humana uniforme. Entender sua diversidade, respeita-la e ouvir seus variados grupos, fazendo-os parceiros no desenvolvimento de produtos e serviços, é fundamental para o posicionamento da marca e assimilação positiva dos seus valores. O público LGBT é um bom exemplo desse cenário. Embora estejam sob a mesma bandeira, apresentam peculiaridades próprias que repercutem no desejo de compra e, consequentemente, na empatia que marcas e empresas despertam nesses consumidores. E a mulher, sem sombra de dúvidas, está mais apta a entender esta diversidade. Seu histórico de lutas e adaptação a situações e ambientes adversos, provocam-lhes o desconforto vital para quem deseja liderar processos inovadores.

 

No meio do caminho, havia uma caixa.

Apesar de inúmeros estudos ratificarem a afirmação anterior, a competência feminina é amplamente ignorada, criando um ambiente totalmente desfavorável às mulheres. Sensíveis à diversidade e tão ou mais capacitadas que os homens, a resistência à liderança feminina ainda é um obstáculo na maior parte das empresas. O jornal Estado de S. Paulo, em sua edição de domingo (10/03/19), trouxe um estudo do IBGE que aponta os homens como ocupantes de 58,9% dos cargos de liderança. Quando tais posições são das mulheres, sua remuneração equivale a 71,3% da masculina. Curioso e preocupante salientar que essa discriminação também vem do público feminino. Não é raro encontrarmos mulheres que discriminam profissionais e executivas por serem mães, por exemplo. Cuidar da família e criar os filhos é considerado uma responsabilidade quase que exclusiva da mãe e incompatível com o trabalho. Ascender no organograma empresarial, ocupando cargos de liderança, é visto por muitas mulheres como um abandono às responsabilidades domésticas e familiares. A relevância do tema tem marcado presença no SXSW 2019, mostrando que a discriminação da mulher no trabalho não pode mais ser aceita passivamente.

 

 

 

Quando o SXSW recebeu a renomada educadora Elida Bonet na belíssima Casa do México, a discriminação saiu do ambiente empresarial e do universo feminino, ganhando as ruas dos EUA. A ancestral aversão norte-americana a povos “diferentes”, abrange qualquer etnia que de alguma forma se diferencie do branco anglo-saxão. Relegados à periferia dos grandes centros e ao subemprego, imigrantes e seus descendentes nascidos nos EUA enfrentam dificuldades de serem aceitos e reconhecidos como legítimos cidadãos do país por sua origem. Um exemplo bastante significativo desse problema está nos formulários utilizados para cadastros gerais, como matricula escolar, abertura de conta bancária ou inscrição em agências de emprego. Em sua maioria, trazem apenas três opções étnicas como se toda a diversidade do país pudesse ser resumida em branco, negro ou mestiço. Essa institucionalização da discriminação mostra como o norte-americano não compreende, e portanto não aceita, sua própria diversidade. Os descendentes de imigrantes nascidos nos EUA diante tais formulários, não se sentem reconhecidos em sua própria terra. Ou se encaixam nas opções que lhes são apresentadas, ou a nada têm acesso.

Essa dificuldade em aceitar diferenças é tão fortemente enraizada no norte-americano que acaba se voltando contra os próprios. Elida mencionou alguns casos curiosos, como o de um texano que vive em Nova York e é discriminado pelo seu jeito de falar, sentindo as mesmas dificuldades dos grupos étnicos que provavelmente ele mesmo não reconheça como cidadãos. Quando fechadas em suas caixas, afastando o diferente por puro preconceito, as pessoas limitam suas experiências ao que lhe parece seguro e compreensível, transformando seu ambiente num campo árido e pedregoso para a inovação.

Mas ninguém está imune à discriminação quando fora do seu quintal.

 

Fora da caixa somos mais fortes.

Atualmente, essa realidade vem mudando. Desde 2015, os EUA estão descobrindo que sua formação étnica diversificada está longe de denegrir o país. A diversidade é uma rica fonte de inovação e desenvolvimento, tornando o ambiente mais colaborativo a aberto a novas ideias. Elida Bonet ressalta o papel da mulher norte americana nesse processo de transformação, assumindo o protagonismo social, exigindo seu espaço e agindo contra qualquer tipo discriminação. É preciso coragem para sairmos de nossas caixas e enfrentarmos o que nos limita, aceitando a variedade que é a raça humana, sem restrições. E esse esforço pela inovação do pensamento social vem dando resultados. Hoje, os formulários, por exemplo, não mais limitam a escolha étnica, substituindo as três opções pré-estabelecidas por um espaço em branco a ser preenchido. A mudança parece ínfima, mas representa o reconhecimento dessas pessoas como norte-americanos de descendência estrangeira que não são brancos, negros ou mestiços. É como se finalmente estivessem sendo aceitos pelo que são ao invés de serem forçados a se encaixar no que o preconceito determina. Essa simples mudança gera efeitos amplos e bastante positivos: além do discriminador sentir que o “diferente” tem direito de ser identificado como ele é, o discriminado se vê apto a levantar e lutar por seu espaço e direitos. O norte-americano começa a deixar sua caixinha.

 

 

Caixinha que já estava aberta quando Eliza Capi encontrou uma infinita variedade humana nos estudantes que conheceu. E ela não viu problemas nessa diversidade. Eles se respeitavam e se entendiam apesar de todas as diferenças. E foi gratificante ver que, naquele ambiente fervilhante e cheio de esperança, as jovens mulheres assumiram lideranças e responsabilidades. Dividiam tarefas como cozinhar e fazer a faxina nas escolas ocupadas, organizavam assembleias para definir estratégias do movimento e não se intimidavam frente às ameaças externas. Com seus shorts curtos e umbigos ao vento, fizeram-se ouvir e impediram que mais de 90 escolas públicas fossem fechadas. O documentário You Turn – Espero tua (re)volta, idealizado e dirigido por Eliza Capai, registra exatamente o momento em que os estudantes paulistas ocuparam 200 escolas públicas (um ano antes da ocupação da Alesp, a qual ela participou) em protesto contra a reforma do ensino imposta pelo governo. O documentário estreou recentemente no Festival de Berlim, onde recebeu o Prêmio Anistia Internacional e o Prêmio da Paz. Quando esta etapa da vida de Eliza parecia ter terminada, numa aula no Open Doc Lab, no MIT, sua caixa foi aberta novamente:  e se o documentário fosse transformado numa obra interativa? Eliza iniciou um processo de desconstrução do documentário para então reconstruí-lo em um formato interativo, possibilitando sua apresentação em salas de aula. Nesse desdobramento, Eliza quer oferecer uma percepção ao aluno que vai além da tela, fazendo-o sentir as dificuldades de organização de um movimento social. Além disso, as diversas escolhas narrativas tomadas em conjunto pela audiência, irá remetê-la ao dia-a-dia das ocupações onde questões eram decididas de forma coletiva e responsável.

No final das contas, aqueles jovens estudantes cheio de espinhas e aparelho nos dentes, levaram Elisa Catai à percepção de que nada se conquista sozinha. E é fora de nossas caixas, em meio a rica diversidade humana, que vamos encontrar a inovação.

 

 

Era exatamente assim que Melina Alves se sentia às vésperas de fundar a DUXcoworkers. Os anos passados em ambientes empresariais tradicionais a convenceu que aquela caixinha já não era suficiente para suas ambições. Ao desenvolver a estrutura de trabalho e os valores da DUX, ela levou em conta uma constatação óbvia: funcionários são, antes de mais nada, pessoas que muitas vezes não se encaixam na cultura e nos valores corporativos da maioria das empresas.  Assim, a DUXcoworkers nasceu como uma rede global criada com o propósito de equilibrar trabalho e vida pessoal, sem compromisso com as regras administrativas convencionais. A DUXcoworkers oferece autonomia aos seus colaboradores e exige responsabilidade no cumprimento de suas tarefas, proporcionando um ambiente favorável ao desenvolvimento conjunto do business e das pessoas. A liderança é exercida pela competência e não por indicações, tempo de empresa ou cargo. 

Se a caixinha lhe parece confortável, a DUXcoworkers não é um lugar pra você.

Womem Adaptive.

Hoje, a DUXcoworkers possui 90% de sua mão de obra composta por mulheres. É interessante notar que a empresa, desde sua fundação, jamais teve qualquer regra discriminatória ou compromissos ativistas. Mas o ambiente tornou-se naturalmente receptivo às mulheres, oferecendo condições para que possam trabalhar e se desenvolver sem que sua vida pessoal seja sacrificada, num  modelo de gestão Womem Adaptive.

 

Fora da caixa, por dentro do mundo.

Este é um momento muito especial para a DUXcoworkers. É uma honra viver o SXSW 2019 no Dia da Mulher, ao lado de inspiradoras mulheres que levam seu pensamento inovador e criatividade além das caixinhas. Estar aqui nesse momento, sendo a prova viva de que as mulheres são competentes para liderar, e cientes de que a diversidade é um patrimônio da humanidade, faz-nos ter a certeza de que estamos em sintonia com o futuro e suas tendências.

Afinal, a caixinha, nunca foi nossa morada.

 



TOPO