Precisamos de cidades mais inteligentes.

O desafio de se estabelecer projetos urbanos inteligentes em países em desenvolvimento.


Smart Cities, ou Cidades Inteligentes, é um termo que está na moda, o que não quer dizer que seja exatamente uma novidade. Se levarmos em conta as necessidades culturais, de segurança,  as condições sociais e os avanços tecnológicos através das civilizações e seus impérios que se alternaram ao longo dos séculos, podemos facilmente classificar outros experimentos urbanos como inteligentes. Machu Picchu, por exemplo. Ainda há controvérsias quanto à função  que a “Cidade Perdida dos Incas” tinha, se religiosa ou administrativa (ou ambas). Porém são inegáveis certos aspectos de sua concepção urbanística no que tange a inteligência de sua estrutura. O local escolhido para sua construção está encravado na Cordilheira dos Andes, num belíssimo ponto em que montanhas são cobertas por uma vegetação que dá a sensação de estender uma palheta de infinitos tons de verde por todos os lados. Hoje, essa empreitada seria rechaçada por qualquer ambientalista que se preze e os construtores enfrentariam forte oposicão o popular, mas Machu Picchu foi concebida de uma forma que não agredisse à natureza.

 

 

Aliás, foi exatamente o contrário: ela foi concebida para se adpatar  às condições que a cercavam sem a pretensão de moldar o meio ambiente às suas necessidades urbanas. Assim, usaram as pedras do próprio local, cortando-as para se encaixarem milimetricamente umas nas outras, dispensando o uso da argamassa, colocando-as em uma inclinação que desse às paredes e muros a possibilidade de balançarem durante abalos sísmicos, tão frequentes na região, sem que desmoronassem. Esta disposição geométrica, conjugada com estruturas cilíndricas e circulares de sua base, formam um sistema de amortecimento que permite o movimento das estruturas em meio a terremotos sem que elas sejam danificadas - uma tecnologia utilizada até hoje em países com problemas sìsmicos, como o Japão. O sistema hídrico desenvolvido em Machu Picchu, que atende toda a cidade com água corrente, a disposição de seus templos, fortalezas, prisões e residências, facilitava o deslocamento, a defesa e as interações religiosas e científicas entre os cidadãos. Sua localização permitia que os Incas avistassem seus inimigos sem que estes os vissem. Tudo isso no século XV, quando o Império Inca estava em seu auge como o maior Império das Américas e uma das civilizações mais multidisciplinares da história, assimilando a cultura dos povos conquistados – embora lhes cobrasse impostos altíssimos.

Machu Picchu não é a única empreitada humana nesse sentido. Alexandria, por exemplo, fundada por Alexandre, O Grande, em 332 a.C para ser um importante entreposto comercial devido a sua estratégica localização no império, também tinha palácios governamentais, centros comerciais, escolas e bibliotecas numa disposição que facilitasse a interação natural de seus habitantes com a administração pública, educação e trabalho, e ainda promovesse a integração de todos os povos que viviam sob seu governo.

Assim, podemos afirmar que as cidades inteligentes estão por aí há muito, muito tempo. Hoje, ganharam o nome Smart Cities e conceitos que a princípio parecem ser uma novidade, mas são apenas as mesmas ideias de sempre adaptando-se aos novos tempos. São nesses momentos que “entendidos” veem a oportunidade de ganharem os holofotes, autodenominando-se especialistas no assunto, sem de fato o dominarem em toda a sua amplitude, tampouco compreenderem as consequências de suas ideias imediatistas. Mitos são criados, esperanças disseminadas e uma perigosa noção de desenvolvimento ganha força se deixarmos que estes “entendidos” monopolizem o assunto e nos apresentem saídas que no futuro mostrem não ser as soluções que procurávamos, abrindo portas que não vão nos levar a um futuro melhor.

Nem inteligente.

 

O que é uma cidade inteligente?

“Segundo a união Européia, Smart Cities são sistemas de pessoas interagindo e usando energia, materiais, serviços e financiamento para catalisar o desenvolvimento econômico e a melhoria da qualidade de vida.  Esses fluxos de interação são considerados inteligentes por fazer uso estratégico de infraestrutura e serviços e de informação e comunicação com planejamento e gestão urbana para dar resposta às necessidades sociais e econômicas da sociedade. De acordo com o Cities in Motion Index, do IESE Business School na Espanha, 09 dimensões indicam o nível de inteligência de uma cidade: governança, administração pública, planejamento urbano, tecnologia, o meio-ambiente, conexões internacionais, coesão social, capital humano e a economia.” É assim que o site da FGV Projetos define Smart Cities, levantando 9 dimensões que nos possibilitam saber se uma cidade é ou não inteligente.

Trocando em miúdos, podemos dizer que uma Cidade Inteligente é um complexo urbano essencialmente colaborativo, no qual a tecnologia é utilizada em prol dessa colaboração, integrando sistemas para aumentar a eficiência dos serviços prestados à comunidade, e pessoas para facilitar a gestão participativa e a própria comunicação social. As nove dimensões ali elencadas são quesitos aferidos na classificação das cidades em uma escala de inteligência, como se fossem metas a serem cumpridas.

A sexta edição do IESE Cities in Motion Index, realizada este ano, analisou 174 cidades, de 80 países, levando em conta as nove categorias acima elencadas para compor o ranking das cidades mais inteligentes do mundo. E não houve surpresas: entre as 10 primeiras, temos sete europeias, duas asiáticas e uma norte americana. As cidades brasileiras que entraram  na análise, o Rio de Janeiro foi a melhor colocada, ocupando a humilde 128ª posição, atrás de cidades como Santiago, do Chile (66), Buenos Aires, na Argentina (77), Montevidéu, no Uruguai (92) e Bogotá, na Colômbia (117). É importante dizer que o IESE Business School levou em consideração o desempenho das cidades em mais de uma dimensão pois, segundo Joan Enric Ricart, coautor do relatório, “uma cidade verdadeiramente inteligente é aquela que tem como objetivo melhorar a qualidade de vida de seus moradores, o que significa garantir sustentabilidade econômica, social e ambiental”. Veja o ranking completo aqui.

 

“A educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para vida, é a própria vida.”

Johne Dewey

 

Mas o que esse relatório nos mostra, e que muitas vezes não ouvimos quando nos deparamos com "entendidos" discorrendo sobre as maravilhas das cidades inteligentes, é que há algo em comum entre as cidades melhores ranqueadas: todas possuem um sistema escolar sólido e uma população cujo nível educacional é muito, muito bom.

Afinal, quando se tem educação, as possibilidades de melhor se usar a inteligência são muito maiores.

 

Massa cinzenta.

Antes de prosseguirmos, é bom deixarmos claro que não somos contra as Cidades Inteligentes. É evidente que não. Mas somos cautelosas quanto ao uso da expressão em função de suas definições e da realidade em que vivemos. A essa altura do campeonato, é preciso ser muito inocente pra achar que temos, como brasileiras, condições de atingir os níveis de inteligência urbana da Europa quando vivemos desigualdades sociais escandalosas e muitas dificuldades em educar nossos jovens.

É a partir da educação, em nossa opinião, que tudo começa. Londres, a cidade mais inteligente do mundo, tem um sistema educacional abrangente e inclusivo, além de oferecer saúde gratuita e segurança à sua população. O National Healhy System é o sistema de saúde mais antigo do mundo e a estrutura educacional inglesa está estabelecida há muito tempo, com obrigatoriedade da frequência escolar para todas as crianças e jovens entre 5 e 16 anos.

Mas isso é assunto para outra conversa.

 

Critérios, pilares e camadas.

Não são apenas as nove dimensões da IESE que são consideradas como pontos de apoio para a classificação das Cidades Inteligentes. É comum ouvirmos termos como “pilares” das Smart Cities ou suas camadas básicas, estas últimas definidas pela Rede Brasileira de Cidades Inteligentes e Humanas, e que traz importantes pontos para iluminar a discussão.  

A primeira camada, considerada a mais importante, são as pessoas. Entender como vive a população, como se organiza, quais seus problemas, tradições e história é fundamental para começar qualquer trabalho que tenha a melhoria urbana como objetivo. A metodologia dos Laboratórios Vivos foi desenvolvida integrar poder público, setor produtivo, entidades de classe, entidades sociais, e população, gerando um Plano Mestre de Cidade Inteligente que integre as demandas, criando sinergia e eficácia nos resultados. O incentivo à economia criativa com o objetivos de gerar novos negócios também é fundamental para termos pessoas mais realizadas e felizes.

A segunda camada é o subsolo da cidade. A cidade precisa entender como funciona sua rede de água, esgoto, telefonia, energia, fibra ótica, etc. Promover a conexão tecnológica é uma coisa lindíssima de se dizer, mas não é tão simples de se realizar. Considerar aspectos estruturais das cidades como pontos importantes à sua evolução é fundamental. Avanços como uma coleta de lixo inteligente e a criação de centros distritais de distribuição de água quente e de ar condicionado, que geram grande economia, assim como a sustentabilidade ambiental, passam pelo acontece embaixo de nossos pés.

A terceira camada é o solo: reurbanização das cidades que devem se organizar de modo a evitar grandes deslocamentos, combinando com um plano urbanístico que consiga aglutinar tudo o que seus habitantes precisem em sua região, como escolas, supermercados, parques e o trabalho. A ideia é estimular as pessoas a andarem a pé ou usarem o transporte coletivo, o que acarreta investimentos públicos nada modestos que vão desde o conserto das calçadas, até a reestruturação do transporte coletivo com os olhos voltados para a acessibilidade, estímulo ao uso de bicicletas, por exemplo. Além disso, o Plano Diretor da Cidade, deve obrigar que as novas construções tenham sistemas inteligentes de captação de água da chuva, de reuso de água, de energia solar, eólica , privilegiar o pedestre em função do automóvel, e por aí vai. É importante ter em mente, sempre, a construção de uma cidade integrada e sustentável.

 

“Todos os pensamentos inteligentes já foram pensados; é preciso apenas tentar repensá-los.”

Goethe

 

A quarta camada é a infraestrutura tecnológica. Uma infraestrutura tecnológica adequada para uma cidade inteligente é composta de um parque de iluminação inteligente, uma rede de fibra ótica, e uma central de operações da cidade. O parque de iluminação inteligente permite fazer a tele-gestão da iluminação pública, com enorme economia de energia elétrica alèm de possibilitar a captação de uma infinidade de informações que, com transparência e segurança, possam servir à toda a sociedade. Pelo parque de iluminação também se pode levar WiFi, com internet, para todos e fazer a gestão de muitas soluções tecnológicas das Cidades Inteligentes. A rede de fibra ótica é importante para que haja a transmissão e o compartilhamento de dados, levando esses dados até a central de operações, onde esses dados são cruzados e trabalhados para que haja inteligência na gestão pública, que deve ser eficiente e eficaz.

A quinta camada é a plataforma de IoT (Internet das Coisas), na qual a inteligência artificial emite relatórios gerenciais para a gestão da cidade e de seu complexo tecnológico como o sistema semafórico inteligente, a segurança pública, a educação, a saúde, e etc.

 

 

Se formos falar em pilares, são seis (podendo ser apenas quatro em algumas vertentes), o Programa Cidades Sustentáveis elenca seis deles: a ECONOMIA INTELIGENTE que promove a competitividade econômica pela integração de inovação e empreendedorismo; PESSOAS INTELIGENTES que representa a qualificação dos recursos humanos e das interações sociais (inevitável não pensar na educação); GOVERNOS INTELIGENTES, que garantem o funcionamento da administração pública e incentivos aos cidadãos no que tange ao lazer, financiamentos, trabalho etc; MOBILIDADE INTELIGENTE que visa promover o deslocamento eficiente para todos os cidadãos, independente de suas limitações e deficiências através do acesso promovido pelas redes de tecnologia de informação; AMBIENTE INTELIGENTE que garante a proteção ambiental e a gestão de recursos; MODO DE VIDA INTELIGENTE que, em última instância, é a qualidade de vida, levando em consideração a cultura, a saúde, a segurança e a habitação.

É importante frisar, novamente, que não importa se vamos considerar os critérios, camadas ou pilares: o importante é sempre considerarmos a educação como alicerce seguro e perene para o estabelecimento de qualquer avanço urbano no que diz respeito aos aspectos físicos, humanos e ambientais de qualquer cidade.

 

Smart Cities made in Brazil.

No Brasil, encontramos exemplos das cidades inteligentes que, em realidade, nos traz duas situações bastante distintas: a evolução de centros urbanos  conhecidos e de significativa importância social, econômica e política no cenário brasileiro, e a incrível construção de uma cidade no Ceará.

Há muito tempo, Curitiba se orgulha pelas transformações no transporte público e pelo empreendedorismo social, a cidade possui políticas públicas que flerta com uma gestão participativa, como a lei municipal de inovação, e a atuação da Agência Curitiba que presta serviços, capacita, promove eventos e programas de incentivo fiscal a empreendedores. Há ainda projetos como o Workitibas e o coworking municipal que torna Curitiba uma das primeiras capitais brasileiras a adotar esse sistema de trabalho colaborativo, mas curiosamente, a capital do Paraná ocupa um modestíssimo 140º lugar, num universo de 147 cidades, no estudo ISEE Cities in Motion 2019, ficando atrás de cidades como Rio de Janeiro, Brasilia e São Paulo.

Santos, no litoral paulista, ganha destaque no meio ambiente pelas alternativas de mobilidade, como o Veículo Leve sobre Trilhos, as rotas de ciclovia e a manutenção dos veículos de transporte público. A Recicleta é outra iniciativa de destaque, em que a coleta de lixo reciclável é realizada com bicicletas, além da EcoFábrica Criativa, onde a coleta de material reciclável é reaproveitada através da produção de móveis e itens de decoração em cursos de capacitação.

Porto Alegre se destaca na segurança pública através do Centro Integrado de Comando, que promove o monitoramento das vias públicas, tonando-se uma ferramenta fundamental para a Secretaria de Segurança da porto-alegrense, integrar-se às demais secretarias e orientar a população em casos de risco como aglomeração de pessoas, acidentes e imprevistos climáticos.

 

“Tornou-se chocantemente óbvio que nossa tecnologia excedeu nossa humanidade”

Albert Eisten

 

Situada em São Gonçalo do Amarante, na região metropolitana de Fortaleza, a 55 km da capital. a Smart City Laguna é considerada a primeira cidade inteligente do mundo a ser levantada do zero. Construída pela Planet, empresa ítalo-britânica de desenvolvimento imobiliário, a Cidade Inteligente tem como principal diferencial permitir que, pelo seu projeto urbanístico, tudo esteja próximo: hospital, escola, bairro comercial. As casas foram projetadas para utilizar energia solar e os cidadãos terão acesso às câmeras de segurança via aplicativo, que também servirá para que se conectem entre si. A promessa é de que essa tecnologia forneça aos habitantes informações detalhadas sobre os gastos da sua casa e sobre o que é consumido na manutenção da cidade inteira. Entre os recursos do aplicativo da Smart City Laguna, existe um botão de emergência para o caso de urgências e outras necessidades médicas, que está integrado ao sistema de saúde da cidade.

Interessante citar que o governo brasileiro também se mostra atento ao assunto. Em 2017, criou o primeiro laboratório do Brasil para pesquisas, testes e certificação de tecnologias para Cidades Inteligentes em Xerém, estado do Rio de Janeiro. O objetivo é aplicar a teoria das samart cities na prática cotidiana de uma cidade de verdade, buscando “soluções para demandas como a integração da iluminação pública com mobilidade urbana, prevenção de desastres, por exemplo. Outra atividade possível seria o controle de serviços urbanos, como luz, água, gás, saneamento de forma inteligente e unificada”.

 

Um projeto inaceitável.

O conceito das Cidades Inteligentes é muito interessante e é muito bom, pra todos, que seja uma meta urbana perseguida com afinco e disposição. Mas não podemos imaginar que aquela parte do mundo em desenvolvimento, ao qual pertencemos, ter um longo caminho a ser sedimentado antes de julgarmos que a tecnologia pode resolver todos os nossos problemas. É fundamental que a educação seja posta à frente de qualquer outra prioridade, sendo pensada com inteligência e voltada para os dias de hoje e com os pés fincados em nossa realidade. Empreendimentos como Laguna não apontam uma solução definitiva para nossos problemas urbanos e soam mais como um condomínio construído para vivermos um sonho isolado de modernidade. Sempre que o assunto for Cidades Inteligentes, pense na periferia de sua cidade, na população carente e como será possível inseri-la nesse futuro. Porque seguir excluindo os menos favorecidos, pode ser qualquer coisa, menos inteligente.

É obrigação de todos, sociedade, iniciativa privada e setor público, lutar pela melhora de nossa educação. E isso certamente dará muito mais trabalho que construir uma cidade que se conecta por aplicativos e tem um sistema de transporte ecológico e eficiente. Porque educar, leva tempo e dá muito, mas muito trabalho.

 

“A crise na educação do Brasil, não é uma crise: é um projeto.”

Darcy Ribeiro

 

Mas seus resultados causam impactos estruturais no país pois quem sabe, quem tem cultura, quem tem acesso à escola de qualidade, quem pode aprender, não só tem a capacidade de ensinar como de exigir seus direitos e participar efetivamente das mudanças que precisamos para um dia, estarmos ao lado das cidades europeias. Se não for pra melhorar a cidade para todos, não será evolução.

Será mais do mesmo sob a capa da tecnologia.

Antes do aplicativo, antes do IoT, temos que ensinar em formar novas gerações educadas de verdade, integradas às suas cidades e à sua comunidade. É sob este alicerce, o da educação e da cidadania, que devemos construir nossas cidades inteligentes.

 

 

Este é o segundo artigo da série que pretende abrir uma discussão sobre a importância da educação na recuperação das cidades como um espaço coletivo a ser ocupado pelas pessoas. Participe: envie sua ideia, opinião e sugestão para call@duxcoworkers.com, ou nos mandando mensagens pelos inboxs de nossas redes sociais.



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